Tentar saber reconhecer

“O inferno dos vivos é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínua: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.”

As cidades invisíveis – Ítalo Calvino

Leituras – março | 2017

Diante da dor dos outros | Susan Sontag

Esse livro é um ensaio sobre a relação com o sofrimento e a dor do outro e as fotografias, principalmente a de guerra. Já conhecia o “Sobre fotografia” da autora (que gostei muito) e li por recomendação.

La Ninã Perdida | Elena Ferrante

A terra dos meninos pelados | Graciliano Ramos

Sentimento o mundo | Carlos Drummond de Andrade

Ouvidos – março | 2017

Desde que “Ascensão” foi lançado, em julho de 2016, tenho ouvido o disco com bastante frequência e posso dizer que é um dos meus favoritos. O último trabalho de Serena Assumpção (que conheci na faixa “Eva e eu”, em “Mulheres de Péricles”) é composto por treze canções para os orixás. Com participações da irmã Anelis Assumpção e de Tulipa Ruiz, Curumim, Kiko Dinucci, Thiago França, Juçara Marçal, Karina Buhr, Mariana Aydar e outros.

O “Padê” é um disco da Juçara Marçal ♥ e do Kiko Dinucci (que com o Thiago França são Metá Metá) lançado em 2007. Uma das canções da minha vida – São Jorge – está nesse álbum e gosto da potência do começo de “abre os caminhos, o sentinela está na porta, abre os caminhos… pro mensageiro passar, pro mensageiro passar…”.

Ler, reler, transler

“O melhor roteiro é sempre ler e assimilar o que lê. Ler para aprender, procurar vencer. A maior dificuldade de todos escritores se limita a duas palavras: escrever bem. Então o roteiro é esse. Procurar ler para aprender. Ninguém escreve bem sem ler muito e procurar assimilar o máximo. Assimilar não é imitar. (…) Eu sou uma grande leitora de Guimarães Rosa e uma grande admiradora dele, muito antes dele ser aceito. A literatura dele não é uma literatura fácil, principalmente nos dois maiores livros dele, Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas (…) Agora há os imitadores de Guimarães Rosa, mas imitar é uma coisa e assimilar é outra. Então eu digo, a gente deve ler, reler, transler. Ser dono dele. Não precisa abrir o livro no começo. Abre ao acaso e só fecha quando cansou, quando já não tem mais tempo. Ponha sempre perto de sua cama ao alcance de suas mãos, ao alcance de seu tempo.”

— Cora Coralina

É preciso aprender a olhar

“Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes um galo canta. Às vezes um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.”

A arte de ser feliz | Escolha seu sonho | Cecília Meireles

Eu fui feita para quebrar

Tenho quebrado copos | O livro das semelhanças | Ana Martins Marques

Tenho quebrado copos
é o que tenho feito
raramente me machuco embora uma vez sim
uma vez quebrei um copo com as mãos
era frágil demais foi o que pensei
era feito para quebrar-se foi o que pensei
e não: eu fui feita para quebrar
em geral eles apenas se espatifam
na pia entre a louça branca e os talheres
(esses não quebram nunca) ou no chão
espalhando-se então com um baque luminoso
tenho recolhido cacos
tenho observado brevemente seu formato
pensando que acontecer é irreversível
pensando em como é fácil destroçar
tenho embrulhado os cacos com jornal
para que ninguém se machuque
como minha mãe me ensinou
como se fosse mesmo possível
evitar os cortes
(mas que não seja eu a ferir)
tenho andado a tentar
não me ferir e não ferir os outros
enquanto esgoto o estoque de copos
mas não tenho quebrado minhas próprias mãos
golpeando os azulejos
não tenho passado a noite
deitada no chão de mármore
estudando as trocas de calor
não tenho mastigado o vidro
procurando separar na boca
o sabor do sangue o sabor do sabão
nem tenho feito uma oração
pelo destino variado
do que antes era um
e por minha força morre múltiplo
tenho quebrado copos
para isso parece deram-me mãos
tenho depois encontrado
cacos que não recolhi
e que identifico por um brilho súbito
no chão da cozinha de manhã
tenho andado com cuidado
com os olhos no chão
à procura de algo que brilhe
e tenho quebrado copos
é o que tenho feito

Ana Martins Marques é poeta e nasceu em Belo Horizonte (MG). Escreveu A vida submarina (2009), Da arte das armadilhas (2011) e o Livro das semelhanças (2015) e Duas janelas (2016). Também é mestre e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais. Em 2016, Ana Martins Marques recebeu o Prêmio Oceanos por o “O livro das semelhanças” e dedicou “as muitas poetas mulheres”.  No site Leve um Livro, é possível fazer o download gratuito de “Arquitetura de Interiores #2”, com poemas da autora.

Eu ignoro imensidões

“… não sei, Bia, quase nada de ti, mas sei que somente o silêncio pode cortar a língua das palavras; sei que muito se fala da morte das estrelas, já apagadas quando sua luz chega até nós, mas ninguém nos lembra que há outras estrelas em gestação, a vida, contra a própria vida, se ergue do nada, a vida, eu sei, rasga com seus galhos espinhentos a paisagem de seda, e eu, ainda que não saiba o quão fundo o capim-cidreira vai cortar a palma da tua mão quando alisares suas touceiras, eu sei o quanto um lápis, mesmo com seu grafite quebradiço, é capaz de obrar milagres contra a vontade do mundo, e, justo porque não sei se tu serás áspera como lixas de aço no trato com as tuas veleidades, eu te digo, Bia, o tempo, que, pacientemente, te trouxe aqui, começou a contagem regressiva, o tempo é este alicate, o tempo puxa o fio da vida, estica-o, corta, emenda, torce, o tempo, Bia, vai te violar de mansinho, a ponto de nem perceber, senão quando, diante do espelho te espantar com o desenho perverso que, sorrateiro, ele moldou em teu corpo, o tempo é o inquilino que mora em cada uma de tuas células, e, como todo inquilino, ali se aloja pra gastar as tuas paredes, sorver o teu oxigênio e recolher em vasilhas, como se fosse goteira, o sol que entra pra te avivar, é o tempo, Bia, que vai te levar à porta da rua, e basta abri-la para tudo que é estranho se entranhar em tua alma, (…).”

Caderno de um ausente | João Anzanello Carrascoza

A Cidade e as Trocas – 4

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Em Ercília, para estabelecer as ligações que orientam a vida da cidade, os habitantes estendem fios entre as arestas das casas, brancos ou pretos ou cinza ou pretos-e-brancos, de acordo com as relações de parentesco, troca, autoridade, representação. Quando os fios são tantos que não se pode mais atravessar, os habitantes vão embora: as casas são desmontadas; restam apenas os fios e os sustentáculos dos fios.

Do costado de um morro, acampados com os móveis de casa, os prófugos de Ercília olham para o enredo de fios estendidos e os postes que se elevam na planície. Aquela continua a ser a cidade de Ercília, e eles não são nada.

Reconstroem Ercília em outro lugar. Tecem com os fios uma figura semelhante, mas gostariam que fosse mais complicada e ao mesmo tempo mais regular do que a outra. Depois a abandonam e transferem-se juntamente com as casas para ainda longe.

Deste modo, viajando-se no território de Ercília, depara-se com as ruínas de cidades abandonadas, sem as muralhas que não duram, sem os ossos dos mortos que rolam com o vento: teias de aranha de relações intricadas à procura de uma forma.

— As Cidades Invisíveis | Ítalo Calvino