Ouvidos – março | 2017

Desde que “Ascensão” foi lançado, em julho de 2016, tenho ouvido o disco com bastante frequência e posso dizer que é um dos meus favoritos. O último trabalho de Serena Assumpção (que conheci na faixa “Eva e eu”, em “Mulheres de Péricles”) é composto por treze canções para os orixás. Com participações da irmã Anelis Assumpção e de Tulipa Ruiz, Curumim, Kiko Dinucci, Thiago França, Juçara Marçal, Karina Buhr, Mariana Aydar e outros.

O “Padê” é um disco da Juçara Marçal ♥ e do Kiko Dinucci (que com o Thiago França são Metá Metá) lançado em 2007. Uma das canções da minha vida – São Jorge – está nesse álbum e gosto da potência do começo de “abre os caminhos, o sentinela está na porta, abre os caminhos… pro mensageiro passar, pro mensageiro passar…”.

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Ler, reler, transler

“O melhor roteiro é sempre ler e assimilar o que lê. Ler para aprender, procurar vencer. A maior dificuldade de todos escritores se limita a duas palavras: escrever bem. Então o roteiro é esse. Procurar ler para aprender. Ninguém escreve bem sem ler muito e procurar assimilar o máximo. Assimilar não é imitar. (…) Eu sou uma grande leitora de Guimarães Rosa e uma grande admiradora dele, muito antes dele ser aceito. A literatura dele não é uma literatura fácil, principalmente nos dois maiores livros dele, Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas (…) Agora há os imitadores de Guimarães Rosa, mas imitar é uma coisa e assimilar é outra. Então eu digo, a gente deve ler, reler, transler. Ser dono dele. Não precisa abrir o livro no começo. Abre ao acaso e só fecha quando cansou, quando já não tem mais tempo. Ponha sempre perto de sua cama ao alcance de suas mãos, ao alcance de seu tempo.”

— Cora Coralina

É preciso aprender a olhar

“Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes um galo canta. Às vezes um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.”

A arte de ser feliz | Escolha seu sonho | Cecília Meireles

Eu fui feita para quebrar

Tenho quebrado copos | O livro das semelhanças | Ana Martins Marques

Tenho quebrado copos
é o que tenho feito
raramente me machuco embora uma vez sim
uma vez quebrei um copo com as mãos
era frágil demais foi o que pensei
era feito para quebrar-se foi o que pensei
e não: eu fui feita para quebrar
em geral eles apenas se espatifam
na pia entre a louça branca e os talheres
(esses não quebram nunca) ou no chão
espalhando-se então com um baque luminoso
tenho recolhido cacos
tenho observado brevemente seu formato
pensando que acontecer é irreversível
pensando em como é fácil destroçar
tenho embrulhado os cacos com jornal
para que ninguém se machuque
como minha mãe me ensinou
como se fosse mesmo possível
evitar os cortes
(mas que não seja eu a ferir)
tenho andado a tentar
não me ferir e não ferir os outros
enquanto esgoto o estoque de copos
mas não tenho quebrado minhas próprias mãos
golpeando os azulejos
não tenho passado a noite
deitada no chão de mármore
estudando as trocas de calor
não tenho mastigado o vidro
procurando separar na boca
o sabor do sangue o sabor do sabão
nem tenho feito uma oração
pelo destino variado
do que antes era um
e por minha força morre múltiplo
tenho quebrado copos
para isso parece deram-me mãos
tenho depois encontrado
cacos que não recolhi
e que identifico por um brilho súbito
no chão da cozinha de manhã
tenho andado com cuidado
com os olhos no chão
à procura de algo que brilhe
e tenho quebrado copos
é o que tenho feito

Ana Martins Marques é poeta e nasceu em Belo Horizonte (MG). Escreveu A vida submarina (2009), Da arte das armadilhas (2011) e o Livro das semelhanças (2015) e Duas janelas (2016). Também é mestre e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais. Em 2016, Ana Martins Marques recebeu o Prêmio Oceanos por o “O livro das semelhanças” e dedicou “as muitas poetas mulheres”.  No site Leve um Livro, é possível fazer o download gratuito de “Arquitetura de Interiores #2”, com poemas da autora.